O meu sinto muito...!



O texto que imaginei pra hoje, era outro. Mas decidi falar do que meu coração está cheio...é o que há em mim, latente, neste momento.

Para os que não sabem, sou natural do Rio de Janeiro, onde cresci e vivi por 26 anos até vir para a cidade de Brasília.  Como diz a cantora Ana Carolina em uma de suas canções: “Vim parar nesta cidade por forças das circunstâncias...” que envolveram minha vida, e aqui estou há 16 anos, completados dia 02 de janeiro deste ano. Vivo com meus dois filhos, distante dos meus pais, meus irmãos, tios, sobrinhos, meus amigos, das coisas que gosto, tesouros que deixei ali.
Alguns me indagam sobre como lido com a distância, sempre respondo que simplesmente me adaptei. Em 2012, quando a ocorrência de uma situação de cunho pessoal alterou o curso da minha vida, seria o momento provável de voltar ao lar, porém fui resiliente à única alternativa racional que me restou, pois escolher  ir embora, seria um ato motivado pela emoção e que me traria desdobramentos desfavoráveis, uma vez que a conquista da minha independência financeira  se deu aqui. Isso acabou por me vincular à cidade de forma praticamente definitiva.
Em alguns momentos sinto falta de tudo que fui obrigada a deixar, sim, digo que fui obrigada porque não tive alternativa, foi a escolha de outrem, a quem eu estava vinculada de forma tão determinante que tive que seguir o fluxo.  De todo modo, tempos depois, partindo da premissa de nada acontece por acaso, compreendi o sentido dos caminhos por que passei, e só agradeci. No mais, lido muito bem na maior parte do tempo e dos anos, com a ausência da proximidade presencial com minha família e com todas as outras coisas que me são importantes, e que estão lá.
Amo minha cidade e as raízes que conectam pra sempre a ela, mas por questões profissionais, e depois, por qualidade vida, hoje, se tivesse uma oportunidade, não sei se voltaria a residir no Rio. Brasília me acolheu, é um bom lugar pra ser viver, relativamente tranquilo em relação às demais cidades do país, e ao menos duas vezes por ano, encontro meios de estar em terras cariocas.
Alguns amigos sempre me dizem que eu deveria ir a outros paradeiros nas minhas férias, e concordo, mas não posso deixar de ir ao Rio, lá estão pessoas  que amo e  muito do que aprecio, tanto pessoas, quanto maravilhas que a cidade oferece, por exemplo,  o mar. O mar do Rio de Janeiro que me faz tão bem. Nele tenho o descanso merecido, a calmaria, a beleza, o renovo, a reflexão, a paz, a sensação de novas esperanças, dentre tantas outras coisas positivas. Mas de tudo que minha terra tem de bom, como o sol quase o ano inteiro, mar, tanta beleza,  gente muito viva, descontração, a camaradagem carioca, o povo animado, falante, simpático,  feliz, nada se compara, nesse contexto,  à alegria que existe ali, agora tão comprometida.
Antes de continuar, é necessário dizer que nem por um segundo tenho a intenção de pormenorizar as mazelas atuais do mundo inteiro, e/ou da cidade de quem quer que seja com  o que escrevo, apenas, neste momento, compartilho do que sinto no dia de hoje, pelos que me são mais próximos.
Infelizmente, ao contrário do que meu coração deseja, tenho tido constantes notícias tristes de lá, do bairro onde cresci, relacionadas a esta pandemia que nos assola.Tem sido assim todos os dias. Normalmente sou das pessoas que tem esperança, confiança, fé, de que dias melhores virão, e continuarei sendo. Entretanto hoje, meu coração se entristeceu mais que o habitual, e foi preciso chorar. E foi preciso sentar e escrever, porque é assim que realizo minha catarse. Escrevo porque preciso, porque transborda, as palavras e as emoções borbulham na minha mente de forma tão abundante e constante, que se não escrever, materializar o que sinto, por meio da escrita, tenho a sensação de que vou sufocar.
A sensibilidade latente é parte do que sou, mesmo quando às vezes o tanto sentir seja algo que exaure. Quero dizer que lamento profundamente, me compadeço, me solidarizo e tenho imensa empatia com a dor das pessoas, advindas das perdas que estão ocorrendo em todo lugar, mas de forma maior, e creio que perfeitamente compreensível,  quando se trata de pessoas com as quais convivi, vivi, tive histórias, momentos, boas lembranças, vizinhos, amigos, colegas, filhos de amigos, pais de amigos, irmãos de amigos, sobrinhos de amigos...
Se pudesse fazer um pedido especial hoje, a ser atendido, eu pediria que tudo isso acabasse e que as pessoas que se foram, de todos os lugares, tivessem uma segunda chance, pra continuarem suas vidas, pra realizarem seus sonhos não realizados, pra fazerem tudo que queriam fazer e não fizeram sempre esperando o momento ‘certo’ chegar. Quantos imaginaram sequer uma vez que suas vidas não chegariam nem à metade deste ano sinistro...? Quantos tiveram seus percursos interrompidos drástica e abruptamente, e sem entender o que houve, partiram!
Queria não ter que ver e saber que pessoas estão indo embora, que estão indo sem poder dizer adeus, morrendo em total solidão, sendo sepultadas sem solenidade, sem despedida, deixando dor, perplexidade, e lutos prejudicados, pela etapa não vivenciada do adeus solene que damos aos que se vão.
Hoje um amigo me perguntou qual a primeira coisa que eu desejo fazer quando tudo isso acabar. Eu pensei alguns segundos e respondi, além do óbvio pra mim, que é agradecer, que gostaria muito de conhecer meu sobrinho caçula, que nasceu recentemente, mas que só vejo por fotos e vídeos que minha irmã me envia quase todos os dias, o Isaac.
Para além disso, quero rever minha família, meus amigos distantes, quero abraçar os que amo, quero visitar aos que eu vivo prometendo rever, mas nunca vou, quero expressar meu afeto pessoalmente, quero dizer a algumas pessoas que elas me importam, quero sorrir com elas, chorar se for preciso, quero ser mais decente que sou, dentre várias outras coisas, tal qual muitas outras pessoas, que devem desejar o mesmo, ou semelhante. Para encerrar este parágrafo, não consigo deixar de pensar no refrão de uma canção que amo ouvir, chama-se ‘Tolo’ - De Maria & Vicka, ouça se puder:

“(...) O mundo vai girar, o tempo não para...

leva uma vida pra entender, só temos um para viver... (...)”.

Encerro esta mensagem falando sobre fé, solidariedade, empatia: mantenha a confiança no divino, ele é invisível aos olhos, mas real como o ar que respiramos agora.  Eleve tua prece, porque sei que independente da resposta, ele ouve. Ele é refúgio nos dias de tristeza, saudade, medo, angústia na alma, emoções e sentimentos que nos são peculiares.
Aos que estão sofrendo nesse momento, por estarem diretamente ligados àqueles que partiram, já que não podemos oferecer nossa presença física,  que a ofereçamos da forma que for possível, se não por palavras, por gestos, uma prece... escolha como se fazer presente, e seja. 

Que a paz esteja com vocês e que não falte jamais a fé.

Adriana Mendes

Comentários

  1. Muito legal o seu texto, Adriana. Essa pandemia vai passar e espero notícias quando você conhecer seu sobrinho. Deus abençoe e tudo vai passar e vai dar certo.

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  2. Excelente texto
    Bem humano e com grande empatia pelas as outras pessoas.
    Ah e só pra Lembrar o Mar do Rio de Janeiro é lindo e toda a cidade também.
    Tudo vai passar e se cuide ta.
    A Sinceridade nas palavras do texto refleti a verdadeira solidariedade.

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    1. Obrigada Raylson! sim, minha cidade tem suas mazelas, mas é realmente maravilhosa, rss. Grata pelas ponderações sobre o texto :)

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  3. Um pouco de história de vida que Deus está abençoando a cada passo.
    Uma reflexão sobre os dias atuais que fica mais difícil dia a após dia.
    Uma excelente reflexão onde espessa seus sentimentos e desejo de dias melhores e poder rever aqueles que vc ama.
    Que Deus nos abençoe sempre e que dias melhores possa nascer e que nos possamos ter uma vida pra entender, pois so temos essa pra viver.

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    1. Obrigada, Tiago, pelas considerações! Deus te abençoe também! bjo. :)

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  4. Como não se emocionar? Bjs mana te amo!❤

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  5. Vixi...
    A benção da maturidade.
    Bem assim " como vivia preocupada em me sentir capaz, hoje, revejo as massas e os moldes que já usei, quem serei? Quando eu for, saberei.
    Menina... Achei o máximo.

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    1. Fico feliz que tenha gostado, obrigada pelo comentário pertinente! bjo :)

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  6. Muito bom mana! Excelente leitura, grato por compartilhar sua sensibilidade, faço coro ao seus sentimentos, e que o Divino nos guarde do dia mal. Abraços! 😌

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    1. Eu que agradeço pela consideração e palavras! amém, abraços pra você também! :)

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