Sobre amizade
Ao
longo da nossa existência estabelecemos variados vínculos de amizade,
por meio das relações interpessoais onde há possibilidade de interlocução, e
óbvio, onde há pessoas amigáveis. A maioria dos leitores deste texto, por certo,
diria que o primeiro lugar onde fez uma amizade foi no colégio, ou vizinhança
ou igreja. Na sequência, curso, faculdade, trabalho, na casa de um amigo, enfim,
onde quer que tenha sido, sem medo de errar, afirmo, que a conexão se deu em razão de uma
coisa a qual denominamos: afinidade, que
é o que temos em comum, igual ou semelhante, com o nosso interlocutor.
Quando
bem mais nova, tinha afinidade com todo mundo que me sorria e/ou que gostasse
de conversar. Sofria corriqueiras decepções, porque achava que quase todos eram
ou poderiam ser meus amigos, sem a menor noção do que isso significava. Assim,
a toda hora descobria naquela relação algo de errado que não estava certo e,
mesmo sem querer, me afastava. Senão assim, era quando ouvia minha mãe dizer: “-
Fulaninho (a) não é teu amigo (a)!”. E o que ocorreu foi que após algumas boas
lições, em algum momento comecei a avaliar o que de fato caracterizava uma
verdadeira amizade, e que fazer um novo colega, não redundava necessariamente
em se ter um amigo.
Não
esqueço uma das decepções, em certa vez que houve uma situação envolvendo uma
das amigas da adolescência, amiga até hoje, chama-se Ana Paula, e mora no Rio
de Janeiro. Eu tinha 14 anos e trabalhava, então, juntei dinheiro pra comprar
um buquê de flores para presenteá-la no dia de seu aniversário. Como não podia sair
do meu posto e queria que as flores chegassem logo ao destino, pedi a uma
amiguinha em comum que as levasse em meu lugar. No dia seguinte, a Ana Paula
entrou na loja com o buquê nas mãos e na boca a seguinte frase: “- Olha que
coisa linda a fulana me deu!!”
Eu abismada,
respondi: - Quem ??!!
A
fulana era uma usurpadora...! Quem diria...?
E
foi assim que descobri que a menina que entregou as flores não era minha amiga,
e que não servia para ser. Por fim, tudo esclarecido com a amiga aniversariante,
passei dias e dias tentando encontrar a pessoinha pra dizer-lhe poucas e boas,
mas a usurpadora desapareceu do mapa do bairro. Resolvi deixar pra lá.
Agora,
rememorando o fato ao descrevê-lo, foi até engraçado. Mas foi também um
aprendizado muito pertinente para aquela fase da minha vida em que eu não tinha
maldade, acreditava muito nas pessoas e pensava que elas eram como eu. Como
dizem alguns estudiosos do comportamento humano: não vemos as pessoas como elas
são, vemos como nós somos.
Todavia,
na mesma fase, também cometi minhas falhas, ainda que sem intenção de magoar ou
entristecer. Talvez esta seja a diferença a se levar em consideração: o que
prejudica o outro por meio da maldade que arquitetou no coração, de forma consciente,
e o que o faz sem nunca ter desejado prejudicar, mas por inexperiência ou
ingenuidade.
Quem
dera as decepções tivessem parado por aí, ou que fossem dessas pertencentes ao
universo infanto-juvenil. Muitas outras vieram, mas fui aprendendo e até hoje
aprendo, pela observação, não tanto mais pela decepção. Chega um momento da nossa progressão em que alguns equívocos não se comete mais, porque não somos mais
tão suscetíveis a isso.
Diz-se
que não escolhemos os amigos, concordo em parte. A verdade é que as pessoas que
encontramos na vida e com as quais nos identificamos, podem vir a se tornar
amigas, a depender dos critérios que utilizamos para decidir quem sim, e quem
não na caminhada conosco. Então, partindo desse princípio, sim, nós os
escolhemos.
Entretanto,
há pessoas das quais nos aproximamos, ou se aproximam de nós, que parecem já
terem vindo escolhidas, chegam a nossas vidas e simplesmente ficam do momento
em que a amizade se firmou, até o “fim”. Com essas pessoas, as afinidades são
mais que pessoais, como hábitos, gostos, jeito, personalidade, pois há
afinidade de alma, e isso é algo sobrenatural, não tem explicação. Tenho por
muito certo que são amizades que sobreviveram ao crivo da verdade, confiança, lealdade
e reciprocidade, pois nenhuma amizade com profundidade, que são aquelas que
ultrapassam a linha do bom coleguismo, se prolonga sem essas características
bem fincadas no chão da verdade.
Se
você chama de amizade a relação que se baseia só na tua verdade, confiança,
lealdade e reciprocidade, há um grande equívoco a ser revisto ou repensado,
pois você não possui um amigo, na verdade, trata-se de alguém que está próximo apenas
por algum tipo de conveniência, e provavelmente você já sabe. Porém, se sabe e
permanece, precisa questionar a si sobre o porquê, uma vez que há algo errado
não só com ele, mas com você também.
Há
muitos que chamei de amigos na caminhada, mas só com as experiências e
maturidade compreendi que não há muitos. Como diz o ditado tão clichê: “Em todo
excesso, há falta”, quem acredita ter muitos amigos, talvez se decepcione ao
precisar contar com cinco, pois amizade, na essência do significado, é
raridade. Tenho muitos bons colegas, e alguns amigos. E em alguns momentos da trajetória, alguns
desses bons colegas, mesmo vivendo longe da minha intimidade, foram elevados ao
status de amigos, sem saber, ao voluntariamente terem demonstrado a nobreza da
lealdade que só um amigo possui.
Benditas
sejam as amizades que não pereceram, melhor ainda, resistiram e amadureceram. Uma das coisas que mais aprecio nestas, é o
fato de que não há tempo ou distância que interfira no elo e sentimento que as
mantém. Que é espetacular reencontrar alguns amigos os quais não vejo há anos e
anos e ter a sensação tão premente de que nada mudou, embora tanta coisa tenha
mudado em nossas vidas. Constatar que não
é necessariamente a presença física o que mais importa, ou estarmos um na casa
ou na intimidade do outro, e sim ambos sermos bons amigos precipuamente, e que
não há crise se não podemos estar presentes em todos os momentos.
Sou
grata por saber que tenho deles a verdade, confiança, lealdade, reciprocidade,
empatia, o companheirismo, a alegria, a paz, o riso, o abraço que recupera, palavra
que restaura, que desperta pra algo que não vi, que me admoesta, e que posso dar
o mesmo a eles, quando precisam ou precisarem de mim.
Não
desejo a você nem a mim um milhão de amigos, que você tenha poucos, porém que
sejam de verdade, pra valer. E àqueles que pensam ter o status de amigo em
relação a nós, com os quais não desejamos vínculo estreito, podemos oferecer uma postura amiga, que é algo que não implica em estreitar amizade ou ter intimidade, ir além da superfície. Se não temos afinidade ou sentimento
recíproco, não temos, simples.
Quanto
aos que considerávamos amigos, mas que nos frustraram com atitudes
decepcionantes, podemos perdoar, agora, se é possível seguir juntos, já é uma
análise particular que cabe a cada um, como já dito, é o momento de decidirmos
quem sim e quem não na caminhada conosco.
Aos
meus bons e velhos colegas, aos meus velhos e bons amigos, e aos meus novos
colegas e novos amigos, um beijo no coração, um abraço de gratidão e com
certeza, um lugar no meu coração.
Adriana Mendes

Excelente! Uma abordagem íntima da importância estar estarmos cercados de amigos. Essa dinâmica relacional nos ensina o caminho da maturidade relacional, que em tempos de adversidades se válida. Nesse processo a reciprocidade é a liga que permite a construção sólida das boas amizades. #pensoCreio
ResponderExcluirBela ponderação sobre o tema, gratidão!
ExcluirNão tenho palavras para descrever a gratidão que sinto por me sentir parte deste grupo seleto!! Quantas lembranças ao ler este texto!!
ResponderExcluirMe lembro desta e de outras que passamos e que ajudou a fortalecer ainda mais essa amizade!
Hoje sei bem o que a Palavra diz sobre amar alguém com a sua alma!
Que Deus abençoe cada dia mais sua vida e de sua família!Te guarde por onde quer que ande!
Te amo ! Muitas saudades !💝
Também te amo, minha amiga! grata pelo carinho e afeição de tantos anos!
ExcluirRealmente as decepções veem quando na nossa imaturidade queremos agradar a todo mundo, com a maturidade aprendemos que podemos ter mais de 1000 amigos em nossas redes sociais, mas realmente teremos se com muita sorte termos durante a nossa existência uns 10 sinceros e bons amigos. Texto bem escrito, parabéns...
ResponderExcluirNão se surpreenda se o numero for menor que 10...hehe, grata pelo carinho!
ExcluirA amizade é uma conexão sincera!!♥️��
ResponderExcluirExatamente amiga... grata por comentar! beijos :)
ExcluirAmigo de verdade, fechamento, como diz a gíria, vou te falar, muitíssimo difícil de achar. Quem tem, certamente encontrou um tesouro. Bjs minha escritora favorita!
ResponderExcluirSim, são tesouros...grata pelo comentário! beijo no teu coração :)
Excluir